terça-feira, 3 de maio de 2011

Toque da Cavalaria / Prosa para os sambistas

    - Alguma última musiquinha, meliante? - perguntava-me o carcereiro.
    - O samba é meu dom, é no samba que eu vivo, do samba que eu ganho meu pão...
    Tudo começou por culpa de meu bairro. Não foi exatamente uma culpa. Foi mais como uma dádiva do queridíssimo Barão de Drummond naquele 28 de setembro. O nobre senhor agraciou nossa vila com o nome da amanda Redentora. Havia sido criado o bairro da Boemia. 
    E, foi por meio dessa boemia e dos sambistas instalados ali que meu pai começou. Sambista de roda, sempre me levava consigo para dar-me alguma cultura. Os toques graciosos dando a leve perfeição naquelas cordas mais que reluzentes. Elas me hipnotizavam. Não conseguia deixar de admirá-las. Braga, machete ou machete-de-braga. Não havia melhor nome que lhe coubesse, senão Leopoldina, nome da mulher que me agraciara com o dom da vida.
    Anos se passaram. Alguns, na época, não percebi que seria tão importantes. Passou-se o Golpe de 31. Não lhe dei muita importância. Vivia do samba e para o samba, na vida boêmia. Havia chegado, então, o momento. Aquele Ato Inconstitucional iria mudar para sempre minha vida. Minha mãe me dizia: "Chegou a hora dos porcos criarem asas e aprenderem a voar". Eu a ignorava por simplesmente não saber do que falava.
    Até que, em uma noite, quando estava em minha roda de poetas, aconteceu. Paramos um pouco com a melodia para tomarmos umas cervejas. Ouvimos, então, o ritmo de um grupo de capoeiristas aumentar. Era aquela batida, a mais temida. Era o Toque da Cavalaria. Logo, todos começaram a correr, não importando para onde, mas precisávamos fugir.
    Contudo, no meio da confusão, Leopoldina saltou de meus braços e tocou o solo. Não podia abandoná-la! Voltei, mas, quando o fiz, um dos Cavaleiros Negros me deu na cabeça com seu cassetete. Acordei horas depois, encarcerado, só para cantar meu último choro: "O samba é meu dom, é no samba que eu vivo, do samba que eu ganho meu pão".
   

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A obra de Afrodite

Era uma noite de lua cheia. Ela brilhava em meio àquela escuridão. Era incrível a força de atração que ela possuía sobre mim. Ela tinha total controle sobre minha força. Apesar desse controle, sentia meu poder aumentando. Era viciante. Mais poderosa que qualquer entorpecente.
Entorpecentes os quais todos os dias eu era forçado a “tomar”. Era uma dor necessária. Aquelas drogas não eram mais viciáveis, passaram a ser repulsivas. Eu tinha a opção de recusá-las. Entretanto, se o fizesse, nunca mais veria minha amada. Era um amor sofrido. No entanto, com o passar dos meses, acostumei-me com a dor. Bastava pensar que, à noite, encontraria meu grande amor. “Ah! E como era mágico esse momento!” Uma única visão de sua esbelta silhueta era suficiente para valorizar todo o meu sofrimento vespertino.
Todavia, a pesar de encontrá-la quase todas as noites, raramente nos falávamos. Porém, sabíamos que não poderíamos existir um sem o outro. Era um amor eterno. Éramos inseparáveis.
Um dia, no entanto, um desastre aconteceu. Eu admirava , por mais uma noite, sua beleza quando, inesperadamente, ela começou a desaparecer, pouco a pouco. Eu enlouqueci. Tentei comunicar-me , mas ela não me respondia. “Ah! Agonia! Responda-me!” Nulo era o resultado. Distribuí minha fúria por todos os cantos. Animais foram exterminados, construções sucumbiram, populações foram dizimadas. Nesse meio, saltei com o intuito de agarrá-la. Foi, então, que tudo acabou. O mar tocou o céu. Poseidon havia beijado Ártemis. O mundo foi às ruínas e, com ele, nós. Era o Apocalipse. O fim de um amor imortal.